Exposição - Miguelanxo Prado

“Miguelanxo Prado é o autor de uma obra de banda desenhada inconfundível, na sua maior parte já ediada em língua portuguesa. A essa bibliografia há acrescentar as 52 ilustrações em acrílico que o autor galego de banda desenhada desenhou para o livro “”Une Lettre trouvée à Lisbonne””, publicado em França no ano de 1995 (e agora também a conhecer a sua edição portuguesa). Como os interessados poderão constatar através dos originais expostos nos Recreios da Amadora, trata-se de um conjunto de magníficas imagens, através das quais o artista capta instantâneos, filtrados pela sua visão pessoal, de uma cidade plural e diversa – como todas, aliás – mas que contém no caso de Lisboa, uma especificidade ao nível das cores, pessoas e objectos que o artista tão bem soube captar.
Os desenhos de Prado fixam-se nos locais de abordagem inevitável – das ruínas do Carmo ao Terreiro do Paço, do Cais das Colunas ao Martinho da Arcada, dos Jerónimos ao Rossio, da Torre de Belém ao Elevador de Santa Justa, entre outros -, desvendam os indícios da passagem de figuras ilustres da História portuguesa (como Fernando Pessoa e o rei D. Sebastião), passando pelo carisma único das noites de fado, e dos velhos e ruidosos eléctricos amarelos da cidade.
O início deste projecto remonta a 1994, quando a editora francesa Dominique Simonnet propos a Prado e ao escritor Eric Sarner a realização de um livro de viagem sobre a capital portuguesa. O objectivo era incluir a obra numa colecção intitulada “”Voyage sans amarres””, na qual foram ainda publicados livros relativos a outros países, de acordo com a mesma metodologia de abordagem: Argélia (Jacques Ferrandez-Rachid Mimouni), Índia (André Juillard-Irène Frain), Estados Unidos (François Boucq-Jérôme Charyn) e Israel (Jean-Claude Denis-Ibrahim Souss). “”Une Lettre trouvée à Lisbonne”” foi o último projecto dessa sequência.
O text de Sarner vale sobretudo pelo facto de nos proporcionar o confronto com um olhar forçosamente “”exterior”” – e isso, apesar de o escritor ser alguém que, confessadamente, estabeleceu uma relação íntima com a cidade. Prado dá-lhe a réplica adequada, ou seja, projectando nas suas aguarelas uma afectividade que só poderia ser expressa por aluém que não consegue encontrar, de facto, a menor diferença entre os que vivem do lado de lá (Galiza) e de cá (Minho) da fronteira.
O que resultou dessa incontornável cumplicidade é um subtil equilíbrio entre o texto de Sarner (entre a ficção e o relato de viagem) e a ilustração de Prado, quente e calorosa como s´ø ele sabe fazer-nos sentir.”